domingo

O homem mais rico do Brasil

Eike Batista: “É preciso ter algum tipo de estresse”
O homem mais rico do Brasil diz como ganhou auto-estima com a mãe e aprendeu a arriscar no garimpo
Leonardo Souza
Com a Baía de Guanabara ao fundo de uma sala envidraçada, Eike Batista ajeita-se na cadeira para conceder entrevista a ÉPOCA sobre as lições tiradas de sua carreira de sucesso. Antes de começar a falar, verifica uma mensagem que chegara naquele instante em seu celular. “Acabamos de captar US$ 2,5 bilhões em um bond (certificado de dívida) lançado nos quatro continentes”, disse. Eike comemora a notícia como sinal de solidez de sua empresa, o grupo EBX. O conglomerado inclui mineração de ferro, exploração de petróleo, geração de energia, construção de navios e operação portuária em grande escala. Os negócios têm valor estimado em US$ 43,6 bilhões. Eike, que começou como vendedor de seguros, chega aos 54 anos como a pessoa mais rica do Brasil (e a oitava do mundo), com um patrimônio avaliado em US$ 30 bilhões, segundo a revista Forbes. O que um empreendedor tão bem-sucedido tem a dizer aos jovens talentos? Suas dicas podem ser resumidas em quatro tópicos.
• É preciso ter algum tipo de estresse em sua vida que o mova a ganhar dinheiro.
• Persistência e disciplina. Fracassar não é nenhuma vergonha, desde que decentemente, honrando todas as suas dívidas.
• Invista em qualificação. Quem não fala inglês ganha 40% menos.
• Faça estágio em empresas do mundo real. A prática vale mais do que um MBA no exterior.
Eike não esconde o desejo de ser o homem mais rico do mundo. “Nós temos o melhor jogador de futebol do mundo, a melhor mulher do mundo, por que não o maior empreendedor do mundo?” Ele diz como pretende chegar lá, em entrevista a ÉPOCA.

                                                 ENTREVISTA - EIKE BATISTA
Paulo Fridman/Corbis
QUEM É
Empresário radicado no Rio, dono do grupo EBX. Tem a oitava maior fortuna do mundo (US$ 30 bilhões em patrimônio, segundo a revista Forbes)

O QUE FEZ
Construiu um conglomerado cujas empresas de capital aberto valem hoje US$ 43,6 bilhões e que se estendem de exploração de óleo e gás a minas de carvão. Foi casado com a ex-modelo Luma de Oliveira, com quem tem dois filhos
ÉPOCA –Por que o senhor virou empresário?
Eike Batista –
Pela vontade de todo ser humano de criar sua independência financeira. Ganhar dinheiro, independentemente da vontade dos pais. Acho que todo mundo começa assim. No meu caso, quando meus pais voltaram da Europa, eu tinha 18 anos. Eu e meu irmão mais velho ficamos na Alemanha, e a mesada não dava para pagar todas as contas até o final do mês. Então, fui buscar uma forma de ganhar dinheiro, um extra para pagar as contas. Esse foi o primeiro estresse importante na minha vida. Eu recomendo a todo mundo: é preciso ter algum tipo de estresse. Aí fui vender seguros de porta em porta. Foi um aprendizado muito bacana, porque portas abriam, portas não abriam. Aprendi a conversar, a falar. Me vender, né? Qualquer empreendedor tem de saber vender uma ideia.

ÉPOCA –Quem lhe serviu de inspiração?
Eike –
Ninguém. Talvez uma coisa muito importante da minha mãe, o carinho, a maneira que ela me motivava. Ela curiosamente me chamava de “bundinha de ouro”. É esse negócio de injetar autoestima na criança, e não fazer o contrário, porque muitas vezes os filhos trazem notas ruins. Seu filho, eventualmente, não vai ser um bom matemático, mas não precisa ser um engenheiro. Se ele tiver vocação para outra coisa, puxe pela vocação dele, sempre elogiando. Acho que o elogio que eu recebi da minha mãe, esse negócio da autoestima, me formou um cara, assim, “eu sei voar”. E nós, quando somos jovens, achamos que sabemos voar. Ninguém melhor que pai e mãe para embutir essa sementinha da autoestima. Minha mãe embutiu em mim de uma maneira extraordinária. Até porque, até meus 20 anos, eu praticamente não convivi com meu pai. E, dos 20 aos 30, nunca pude misturar nada dos meus negócios com os da Vale, porque ele foi muito rígido com isso. (O pai de Eike, Eliezer Batista, foi presidente da Vale.)

ÉPOCA –Alguém lhe deu algum conselho ou disse algo marcante?
Eike –
Não, nada. Essencialmente, o que me marcou foi a vontade ferrenha de ganhar dinheiro, pagar minha conta. Quando você precisa pagar, você olha as coisas mais imediatas que pode fazer e corre atrás. É um processo imediatista, não é visionário.

ÉPOCA –Como o senhor começou?
Eike –
Comecei a comercializar diamantes e tentava vender carne enlatada. Eu era um intermediador, ganhava uma comissão. Tinha um amigo no Brasil que fazia a parte daqui, e eu buscava os compradores fora. Tinha uns 19 ou 20 anos. E, aí, quando eu voltei para o Brasil, com 21 ou 22 anos, li numa manchete que estava acontecendo uma corrida do ouro na Amazônia. Não foi Serra Pelada, foi antes. Aí decidi fazer uma visita a Itaituba, no Pará, que era um centro nervoso das operações de logística do ouro da Amazônia. Enxerguei ali uma oportunidade e virei comprador de ouro, vendendo depois em São Paulo e no Rio de Janeiro. Foi aí que comecei a me estruturar. Montei uma empresa de compra e venda de ouro, chamada Autram, e já tinha meu sol inca como símbolo, que está em todos os meus negócios. Cheguei a ter 60 compradores de ouro. Em um ano e meio, cheguei a comprar US$ 60 milhões em ouro e fiquei com 10% desse dinheiro. Ganhei US$ 6 milhões. Aí veio um lado curioso: eu não tinha sido roubado, não tive acidentes, mas a margem, que era de 10% líquida, começou a cair, porque começou a entrar concorrência.

ÉPOCA –Foi aí que o senhor decidiu comprar garimpos?
Eike –
Sim. E então veio um lado muito engenheiro da minha vida. Eu sabia que tinha ouro. Comprei as terras, tomei posse, e junto com as terras vieram as concessões minerais. Contratei uma empresa canadense para furar. Se colocasse a máquina para funcionar, teria margens líquidas de 80%. Como sempre chamei, “uma mina à prova de idiota”. Uma mina rica que aguentava pagar todos os meus desaforos. De fato, a mina estava 100 quilômetros fora da estrada, não tinha água, não tinha acampamento, nada. Eu fiz uma ponte aérea. Desmontava um trator aqui e remontava dentro da mina. Combustível, mantimentos, você cria uma cidade. É um negócio logístico brutal. Como você é meio autossuficiente, tem de tomar conta de tudo sozinho, daí vem a cultura de a gente pensar sempre de forma holística. E a mina era tão rica que pagou a conta toda. Quando começou a funcionar, passou a gerar US$ 1 milhão por mês. O que eu aprendi? A funcionar de forma diferente. Eu podia ter quebrado nessa empreitada.

ÉPOCA –Como o senhor explica o fato de ter alcançado o sucesso tão jovem?
Eike –
Eu diria que sou muito persistente. É como uma corrida de maratona, você tem de tentar de novo, não desistir na primeira. Tem de insistir, o que implica disciplina. Minha mãe me educou assim. Eu tive asma com 10 anos. Ela me botava numa piscina para nadar, e eu literalmente curei minha asma. A disciplina me trouxe a solução. Uma coisa muito boa para os jovens é o autodesafio. Por exemplo, esporte. Que seja uma caminhada de 2 quilômetros. Não precisa ser uma maratona, mas pelo menos coloca uma meta. Ter meta com disciplina é uma coisa muito bacana para a formação.

ÉPOCA –Qual é o papel dos jovens no futuro do Brasil?
Eike –
No nosso roadshow (a captação de recursos no exterior feita pela OGX, empresa da área de petróleo e gás) , metade das quatro equipes tinha menos de 27 anos. Nossa tropa de elite mais velha são veteranos da Petrobras. E essa tropa de elite só vai buscar uma nova tropa de elite (mais jovem) . Competência traz competência. Fiquei fascinado com a garotada nesse roadshow. O futuro é da geração nova. E eles estão preparados.
“Ela (sua mãe) me motivava. Me chamava de ‘bundinha de ouro’. Ninguém melhor que pai e mãe para embutir essa sementinha de autoestima”

ÉPOCA –As novas gerações vão suplantar essa tropa de elite mais velha?
Eike –
Vão suplantar. Tem uma garotada extraordinária aí. E nós fomentamos isso. Temos muitos estagiários aqui, e a vontade da turma sênior é passar isso para a garotada.

ÉPOCA –A qualidade do ensino no Brasil é suficiente para formar empresários?
Eike –
Há escolas extraordinárias e ensino mais que suficiente para atender às necessidades brasileiras sem precisar treinar lá fora. Os executivos brasileiros foram treinados na guerra nos últimos 20 anos. Os americanos ficaram preguiçosos.

ÉPOCA –Fracassos do passado serviram para corrigir a rota que lhe permitiu chegar até aqui?
Eike –
Sim. Primeiro porque um choque de humildade é sempre bom. Segundo, se você passar pelo processo de fechar uma empresa, mas pagar aos bancos direitinho, remunerar direito seus funcionários, você será benquisto para voltar para o mercado. Isso é muito importante. Fracasso não é uma coisa feia. Você pode tentar cinco vezes. Vários bilionários americanos fracassaram muito antes de acertar. Não é vergonha, partindo do princípio de que você encerrou sua operação da maneira correta.

ÉPOCA –Fracassar com honestidade.
Eike –
Isso. No Brasil, tinha muito aquele negócio de “a empresa quebrou, mas na pessoa física o cara ficou bem”. Aí não. Se você quebrou, honre tudo com seus bens e eventualmente o sistema vai te dar uma segunda chance. Essa é uma lição muito importante para os empresários brasileiros: fechem seus negócios com decência.

ÉPOCA –Que lição passaria aos jovens?
Eike –
Qualifiquem-se para ganhar mais. Por isso eu falo inglês. Se você fala inglês, ganha 40% a mais. Fazer estágio em empresas do mundo real muitas vezes é mais importante que fazer um MBA lá fora. Deixa o MBA para mais tarde. Uma das grandes razões para o meu sucesso é que parti para o mundo real muito cedo. O mundo real é que paga a conta. Ali é que você sente se acontece ou não.

ÉPOCA –Por que o senhor quer ser o homem mais rico do mundo?
Eike –
Isso é uma bobagem. Eu sempre fui muito competitivo. Corri de lancha. Aí os paulistas me desafiaram lá em Angra dos Reis a correr de lancha. Entrei no circuito e ganhei o campeonato brasileiro. Aí disseram que correr aqui era muito fácil. Corri lá fora, ganhei o mundial e o campeonato americano. Parei porque não queria morrer. Sou muito competitivo. Esse negócio de ser o primeiro vai ser consequência das coisas que já construí. Eu estou aqui fazendo uma previsão do que vai acontecer em 2015 por coisas que eu já construí.

ÉPOCA –Ser o homem mais rico, então, seria consequência do que existe hoje?
Eike –
Consequência do que já está montado hoje. Os US$ 2,5 bilhões que entraram hoje só representam mais um pilar dessa história. Nós temos o melhor jogador de futebol do mundo, a melhor mulher do mundo, por que não o maior empreendedor do mundo? 
Da Redação com Época

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